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O que você sabe sobre a Tradução Literária?

Muita gente tem curiosidade sobre a tradução literária e os processos envolvidos nessa área da carreira tradutória – tanto profissionais da tradução quanto outras pessoas, que gostam de ler e usufruem do trabalho desses profissionais. Muitos estudantes de Letras que têm o sonho de se tornar tradutores, ou pessoas de outras áreas que trabalham com tradução, têm em seu horizonte esse sonho de trabalhar com a tradução de literatura, já que essa área é de muito interesse para quem ama ler e para quem ama traduzir. Neste artigo, vamos falar de algumas curiosidades sobre o mundo da tradução literária!

A tradução é uma criação e o tradutor é um escritor

Um tradutor literário não vai trabalhar exatamente da mesma forma que um tradutor técnico ou científico. Isso porque os tradutores de áreas mais “exatas” têm em mãos um texto muito mais direto, menos interpretativo, do que um tradutor de literatura. Assim, esse profissional vai precisar criar muito mais, encontrar alternativas para piadas ou trocadilhos, encontrar a palavra certa para fazer o leitor da tradução chorar ou rir, de acordo com o texto original. Um autor, antes de escrever um livro ou um conto, vai pesquisar os conceitos, a época, tudo que vai construir aquela narrativa que ele espera colocar no papel. O tradutor de literatura, similarmente, precisa estudar não só a obra que vai traduzir – examinando outras traduções que já tenham saído, por exemplo, ou lendo resenhas e artigos que tenham sido escritos sobre o livro –, mas também o autor, seu estilo, seu projeto literário e como ele se conecta ao texto a ser traduzido. Tudo isso vai influenciar as palavras escolhidas pelo tradutor para dar nova vida à obra original, em outra língua e outra cultura.

A tradução é uma aproximação

Uma coisa que tanto os leitores quanto os tradutores precisam aceitar – e compreender – sobre a tradução literária (e, talvez, sobre toda tradução), é que ela é uma aproximação. Ela não vai ser o texto exato da língua original, apenas “traduzido literalmente”. Isso é impossível, pois quando se traduz um texto literário, não se traduz apenas as palavras contidas no texto; o profissional está também traduzindo sua própria interpretação, além do contexto cultural e social da obra original. Quando esse contexto é transportado e traduzido para outro – por exemplo, da Inglaterra para o Brasil –, o tradutor vai precisar fazer opções de aproximação para conseguir fazer esse texto em inglês ser compreensível – linguisticamente e culturalmente – e interessante para o leitor brasileiro, ao mesmo tempo sem apagar as marcas culturais e sociais que estruturavam aquele texto original. É um processo muito delicado, e é um processo de criatividade. Vai além de apenas saber que “she”, em português, é “ela”. Está muito além do significado que as palavras têm no dicionário.

Há sempre perdas na tradução literária – e ganhos também

Durante o processo tradutório, especificamente falando do processo de traduzir uma peça literária, vão acontecer algumas perdas – trocadilhos com homonímias, piadinhas com base em eventos muito marcados culturalmente, muitas vezes não podem ser traduzidas para o português pois não existiria equivalente perfeito, ou mesmo aproximado. Esse tipo de situação emerge em praticamente todo texto literário. E o bom tradutor vai precisar ter o gingado para driblar esses probleminhas e entender, aceitar, sem empacar no meio do texto, que talvez aquela parte não possa ser traduzida de forma direta – vai ter que acontecer uma criação, uma explicação dentro do texto ou em forma de notas de rodapé ou de uma nota do tradutor no início ou no fim do livro, caso seja uma questão recorrente no livro. É importante explicar para o leitor que essa perda ocorreu, e os leitores devem, por sua parte, compreender que isso não quer dizer que o profissional não testou mil maneiras de resolver aquele problema. O tradutor se debruça sobre cada escolha feita dentro do texto, e essas pedrinhas no caminho, essas decisões mais difíceis, com certeza são as que deixam os tradutores acordados antes de dormir, pensando no que seria melhor ou mais adequado. Mas, às vezes, é preciso admitir que não há o que ser feito – e tudo bem! Ao mesmo tempo, talvez essa perda possa ser compensada em alguma outra parte do livro, onde é possível fazer um trocadilho em língua portuguesa, ou uma piada em português fica mais engraçada no que no original, porque veio a calhar que no português as palavras casam melhor. A tradução, nesse e em tantos outros sentidos, é um processo de troca.

O processo de tradução é variado

Cada tradutor vai ter seu processo de tradução. Alguns leem o livro só uma vez antes de traduzir, e é isso. Outros, vão lendo um capítulo por vez – leem, traduzem, leem, traduzem. Ainda outros releem o livro continuamente enquanto o traduzem. E outros leem uma vez antes e uma vez depois de ter terminado a tradução do texto. Alguns traduzem tudo de uma vez, ou demora mais para traduzir. Alguns traduzem na ordem correta dos capítulos, outros escolhem começar do meio, ou do final. Cada tradutor vai ter o seu jeito, o seu processo, a sua dinâmica de tradução. E conforme o profissional vai avançando na carreira e concluindo mais projetos, ele vai descobrindo o que funciona para ele – e o que não funciona! É difícil dar dicas sobre processo de tradução, principal em se tratando de tradução literária, pois é algo muito pessoal. Cada tradutor vai ter os seus rituais. E é muito interessante conversar com os profissionais e descobrir como são diferentes os métodos para fazer fluir as palavras que depois vão acabar no papel.

Sobre a indústria editorial

A indústria editorial é uma das mais complicadas para alguém que quer trabalhar nela, mas não entendeu ainda como entrar nesse mundo. A verdade é que o profissional vai precisar estar no lugar certo, na hora certa, conhecendo as pessoas certas. Um dos jeitos mais eficientes ou, talvez, “clássicos” de conseguir entrar na área de tradução literária é estudando a tradução literária, estando dentro da academia, das universidades, em eventos da literatura e conhecendo outros profissionais da área. Para um tradutor que tenha um “projeto do coração”, um livro que sonha muito em traduzir, também pode ser boa opção migrar para a área acadêmica, estuda e traduzir o livro em um mestrado ou doutorado e, a partir daí, oferecê-lo para editoras a partir dos contatos firmados nessa caminhada. Estando dentro do mundo das editoras, o tradutor tem, normalmente, de 3 a 5 meses para traduzir um livro – às vezes, muito menos, outras vezes, um pouco mais, dependendo do projeto.

A indústria da literatura e das editoras no Brasil é bastante fechada. Mas, não é motivo para desistir do sonho de trabalhar com a tradução de literatura. Basta ter persistência, procurar estar nos lugares certos, e sempre investir nos contatos.